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BOLETIM FILOSÓFICO

Nota sobre o Poliedro dos afazeres humanos e o elegíaco Propércio.

Willis Santiago Guerra Filho

Professor Titular do Centro de Ciências Jurídicas e Políticas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Livre Docente em Filosofia do Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Doutor em Ciência Jurídica pela Universidade de Bielefeld (Alemanha). Doutor e Pós-Doutor em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). Doutor em Psicologia Social/Política (PUC-SP)

            Podemos representar o quanto se tem aqui em mente, para figurar os diversos modos fundamentais de constituição dos afazeres humanos com o auxílio de um poliedro, portanto, de uma figura geométrica composta por polígonos em seus vértices, traçado com triângulos nesses vértices. Em um dos vértices temos o direito, formando um triângulo com a política e a economia, tendo como conteúdo o poder. Em outro vértice temos a religião, formando triângulo com a magia e a mística, em torno da crença. Um terceiro vértice seria o da criação, formando-se um triângulo com a literatura, artes cênicas e plásticas. Um quarto seria o do desejo ou gozo, conteúdo de um triângulo em que se teria a erótica, a festa e a humorística. Ao centro desta quadratura tem-se o vértice do saber, em que filosofia, ciência e técnica formam o triângulo em torno. Os triângulos todos estão ligados e entre eles flui, como através de vasos comunicantes, a seiva neles contida, seus valores, os valores, que por este fluxo se revigoram, transmutando-se uns em e por outros, sendo o impulso dado pelo desejo, em busca de gozo, fruição, polimorficamente. É que no poder há saber, e vice-versa, como bem sabemos, há saber no poder, saber dá poder, mas há também gosto neste saber, como no poder – aliás, saber e sabor são sinônimos, são a mesma palavra, pois em Portugal ainda se diz que “sabe bem” o que tem gosto bom -, gosto que nos remete à arte, dimensão criativa que se há de ter para produzir o saber e com ele o poder, nos quais se há de crer, imaginando, criativamente, o que assim se vai fazer, obter, e por aí vai. Os polígonos, então, se mostram dotados de propriedades hologramáticas, projeções diversas de uma forma fundamental, que é vazia, é o vazio que nos constitui ou em torno do qual nos constituímos, dando-lhe sentidos, expresso em valores.

            Exemplifiquemos como pode se dar essa circulação de valores com a poética erótica dos chamados poetas elegíacos romanos, e dentre eles, Propércio. Propércio viveu entre 54 e 15 a.C., em Roma, portanto nos finais da República e começo do Império, tempos de Augusto e de Mecenas, que para promover a glória do Imperador financiava artistas, Propércio incluído, o qual teve como contemporâneos Catulo (87 – 57 a.C.), Horácio (65 – 8 a.C.), Ovídio (43 a.C. – 18 d.C.), Tibulo (54 – 19 a.C.) e Virgílio (70 – 19 a.C.), poetas do amor, que tomavam como modelos os antecessores gregos, entre os quais se praticava esta forma específica a ele dedicado, que é a elegia, a qual tinha origem na Grécia, tendo como patronesse Safo de Lesbos e como patrono Calímaco.[1]  Mais em alguns deles, como Ovídio, Tibulo e Propércio, se afirmava uma vida dedicada ao amor erótico, e não importa tanto se com isso refletiam já práticas disseminadas na sociedade ou se as propunham, mas o fato é que Augusto, o segundo Imperador romano, a partir de certo momento começa a promulgar leis moralizadoras, como a Lex Iulia de adulteriis coercendis (em 18 a.C.), proibindo o adultério, o que teria causado grande revolta ao primeiro dos poetas que vimos de referir, Ovídio, o qual vem a sofrer a pena de degredo, e pode ter sido a causa do arrefecimento do ardor poético de Propércio, como se nota em sua produção derradeira. Ora, proibir o adultério era como proibir o próprio amor, visto que por definição ele então estava excluído da relação conjugal, constituída no triângulo formado pelo direito com a economia e a política, onde se encontrava segregada – o que nos indica o quanto já se pode ali colher da mentalidade moderna, ocidental, isolando uns dos outros os diversos aspectos da vida humana. Tais proibições, ao que parece, como soe acontecer, ao afrontarem tão diretamente o desejo, resultaram antes em reforço da licenciosidade, intensificada no Império, como uma espécie de corolário da Pax Augusta.[2]

             Propércio vai então promover uma intensificação e direcionamento do desejo propugnando em sua poética o servitium amoris, a escravidão do amor, firmando um pacto (foedus) pelo qual dá sentido a sua vida ao entregar sua fidelidade à sua musa, Cíntia, sendo que fidelidade era algo próprio do contrato conjugal, expressão da submissão econômica, jurídica e política da esposa ao cônjuge varão, a quem ela devia este tipo de fidelidade, que não é de natureza propriamente sexual e, muito menos, afetiva, amorosa, excluído que estava tal sentimento para com e por parte de quem era antes um objeto na relação conjugal. O poeta erige assim sua amada na condição de domina, que não é mollis, “doce e suave”, apesar de ser mulher, mas sim dura, “cruel e inclemente”,[3] voluntariosa, mas conquistável, por meio de uma militância poética, subvertendo assim, completamente, o ideal político e a prática jurídica dos romanos. Rompe, aí, radicalmente, com distinções estabelecidas, sobre a posição e função de um romano, paterfamilias, cidadão, livre, empenhado nos negócios privados e públicos acima de tudo, em busca de fama e riqueza, pois favorece a vida inerte, de otium para se dedicar aos anti-negócios da poesia e do amor. E isso se sujeitando a uma mulher, que ela sim era livre, apesar de eventualmente casada ou de status inferior, adotando para si uma capitis deminutio mais que máxima – pois o escravo o era de um senhor, não de uma senhora -, para assim descobrir o gozo de ser sujeito, mutável, gozando do e com direito, ao parodiá-lo, adotando as leis do amor ditadas pelo “direito” da amada. Propércio assume e sustenta sua posição ante os que o censuram e acusam de ser covarde na décima primeira elegia do seu terceiro livro, que se inicia com os seguintes versos:[4]

Quid mirare, meam si versat femina vitam

et trahit addictum sub sua iura virem, (…)

O que estão olhando, surpresos, por uma mulher ter me transformado a vida

e conduz “sob vara” com seu direito a um homem, (…).

             Já na sétima elegia do seu segundo livro se refere Propércio a uma lei de Augusto que obrigava os jovens romanos a se casarem:

Gauisa es certe sublatam, Cynthia, legem

qua quondam edicta flemus uterque diu,

ni nos divideret: quamvis diducere amantis

non queat invictos Iuppiter ipse duos.

Alegria, gozo, “gaudium”, diz o poema, acomete Cíntia, como a ele, pela revogação da lei, cuja promulgação antes os fez chorar, por lhes ameaçar com a separação, quando nem o próprio Júpiter poderia operar tal separação, para desgosto dos amantes.  Evidencia-se aqui crítica à arbitrariedade do poder imperial, arvorando-se superior ao próprio Deus maior. E segue o poema:

            “at magnus Caesar”. sed magnus Caesar in armis:

            devictae gentes nil in amore valent.

            Nam citius paterer caput hoc discedere collo

            quam possem nuptae perdere more faces,

            aut ego trasirem tua lumina clausa maritus,

            respiciens udis prodita luminibus.[5]

César, então, é grande, mas é grande por força das armas, com as quais submete nações, mas isso nada vale no amor, e o poeta se diz pronto a ter a cabeça cortada, se tivesse de perder o seu fogo amoroso para se render a uma esposa, sendo forçado a passar diante da porta da amada com os olhos úmidos de lágrimas, por ser o marido de outra.  Na estrofe seguinte, se diz disposto a se recusar a fornecer filhos para os triunfos marciais da pátria, preferindo ser ele o soldado no acampamento da amada, indo para a guerra somente se a levasse consigo, pois a glória que busca é a de ser dela o maior amante. E finaliza com os seguintes versos:

tu mihi sola places: placeam tibi, Cynthia, solus:

hic erit et patrio nomine pluris amor.

(Só gosto de ti e só tu me dás prazer, Cíntia;

este amor vale mais do que ser pai).

            E é justamente por não ser proprietário de sua amada, como o marido era da esposa, filhos, escravos e tudo o mais que constituía seu patrimônio, que o poeta poderá dela gozar e usufruir como dos bens que se tem apenas a posse, tornando-se possessivo, extremamente ciumento. Aliás, assim como ela também, apesar de, ao contrário dele, ser volúvel, pôr-se em circulação, livre que é, podendo até se entregar em troca de presentes, sem assim se ver reduzida à condição de mercadoria, como estariam as esposas e as prostitutas. Eis-nos confrontados com a origem jurídica do gozo, em contato com uma poética em que se goza com o severo direito romano, brincando com ele e, assim, desativando-o, ao dar-lhe um novo uso, profanando-o, nos termos de Giorgio Agamben.


[1] Cf., de um modo geral, Paul Veyne, Elegia erótica romana😮 amor, a poesia e o Ocidente, trad. Mariana Echalar, São Paulo: EDUNESP, 2015.

[2] Neste sentido, Carlos Ascenso André, Caminhos do Amor em Roma, Lisboa: Cotovia, 2006, pp. 41, 57 e 91.

[3] Id. ib., pp. 251 e 263.

[4] Propercio, Elegías, ed. bilíngue de Francisco Moya e Antonio Ruiz de Elvira, Madri: Cátedra, 2001, p. 454. A justamente premiada tradução de Guilherme Gontijo Flores é a seguinte: “Te espanta que uma moça me revire a vida / e arraste um homem sob as suas leis?”. Cf. Elegias de Sexto Propércio, ed. bilíngue, Belo Horizonte: Autêntica, 2014, p. 225.

[5] Novamente, na tradução Guilherme Gontijo Flores: “Ah! Cíntia, te alegrou a abolição da lei,/ cuja promulgação nos fez chorar!/ Não nos separaria –  nem Júpiter pode/ afastar dois amantes que se adoram./ ‘Mas grande é César!’ Sim, grande é César na guerra:/ no Amor povos vencidos nada valem.// Antes me arranquem a cabeça do pescoço/ do que perder nas núpcias minha chama/ ou casado passar por teu umbral e ver-te/ traída com meus olhos rasos d’água”. Elegias de Sexto Propércio, cit., p. 105.

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