BOLETIM FILOSÓFICO XIV BY WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO

BOLETIM FILOSÓFICO XIV BY WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO


Religiosidade Nietzschiana: ( PARTE 1 )

Por uma última aventura humana sobre a Terra

Willis Santiago Guerra Filho

Professor Titular do Centro de Ciências Jurídicas e Políticas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e professor permanente de Filosofia do Direito do Programa de Estudos Pós-Graduados (Mestrado e Doutorado) em Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Mestre em Direito, Doutor em Psicologia Social (Psicologia Política) e em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Doutor em Ciência do Direito pela Universidade de Bielefeld (Alemanha). Doutor e Pós-Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Livre Docente em Filosofia do Direito e Especialista em Filosofia e Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Ex-Professor Titular de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) teve formação em filologia clássica, matéria que lecionou durante uma década, até 1879, quando se aposentou prematuramente, por conta de fortes enxaquecas que o acometeram durante toda a vida, sem que até hoje se saiba ao certo sua origem, estando provavelmente relacionada com a crise nervosa que em princípio de 1889 o levou a cair em um estado irrecuperável de insanidade mental. A partir de então, ficou até o fim de seus dias aos cuidados da mãe e de sua única irmã, responsável pela edição póstuma truncada de seus escritos, que permitiu sua identificação, totalmente espúria, com o nazismo. 

Mesmo quando ainda se dedicava à filologia, iniciou a publicação de obras bastante surpreendentes e heterodoxas, sob a influência, inicialmente, de Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), bem como do compositor Richard Wagner, com quem rompe da mesma maneira apaixonada com que antes o seguiu. Seu nome encontra-se associado, no imaginário popular, à por ele anunciada “morte de Deus”, bem como à figura do “super-homem”, que emergiria deste mundo sem Deus, tal como anunciado, de maneira extremamente bela e cheia de simbolismo, em sua obra de Assim falou Zarathustra (1883). Talvez por isso, não foi desde logo aceito como filósofo – aliás, não foi aceito de jeito nenhum, tendo que custear com seu parco salário a publicação de suas obras, que demoraram a encontrar os primeiros leitores, tal como ele mesmo previra, assim como previra que eles se tornariam multidões, quando ele fosse compreendido, no século seguinte, o que de fato aconteceu. Sim, porque para quem fora um (grande) filólogo, desistente dessa forma de teologia secularizada que é a filologia, convertido em poeta do pensamento, tendo percebido o mundo verdadeiro como uma fábula e a verdade como ficção, restou a prática de uma escrita criadora ou re-criadora do mundo, fazendo de sua obra o cenário em que se digladiavam as forças políticas e sociais de seu tempo, quando estava em gestação o nosso tempo, colaborando, desse modo, nessa gestação. É assim que para o autor da alentada obra Nietzsche´s Corps/e (título que é um jogo de palavras, em que se misturam o corpo da obra de Nietzsche e o seu cadáver, corpse, em inglês), de 1996, o (neo)marxista norte-americano Geoff Waite, Nietzsche teria inoculado-se como um vírus na cultura ocidental e, logo, mundial, seguindo antiga receita grega, fornecida, entre outros, por um de seus autores prediletos, Píndaro, para obtenção da imortalidade pela sobrevivência do próprio pensamento nos pósteros, que continuariam falando de quem os pensou ou, principalmente, pensando, até sem o saber, o mesmo que antes já fora pensado pelo morto. Então, ao que parece o modo mais eficaz de se permanecer, dessa maneira, é pensando e escrevendo o impensável ou que até se pensa, mas não se tem coragem de dizer e, muito menos, escrever. Pois foi exatamente o que Nietzsche fez. 

Anunciar a morte de Deus, em termos de filosofia, não era novidade, pois Hegel já o tinha feito, em sua filosofia da religião, e o cristianismo é essa religião em que Deus morre, na cruz. nosso A. se oponha a qualquer manifestação que se apresente como transcendente, de um “mundo além”, bem como a toda forma de monoteísmo, seria incorreto afirmar que ele, simplesmente, propõe o ateísmo como alternativa. Isso porque, para ele, a religião se mostra como parte essencial de toda cultura saudável, ou seja, daquelas do passado e, especialmente, da Antiguidade grega mais recuada, sendo exatamente uma tal saúde que se perdeu na Modernidade, e que ele espera possamos alcançar superando-a, reatando vínculos perdidos com uma tradição, mais do que apostando em um progresso para melhorar, no que teria um papel importante a desempenhar novos deuses, forjados de acordo com uma ordem natural – “o sentido da Terra”, como ele diversas vezes menciona em seu “Zarathustra” -, para atender aos anseios maiores de uma humanidade que se pretende, buscando-os, também superar, para que viva o “além do homem” (tradução mais adequada que “super-homem” para Übermensch). É para semelhante cura da cultura que seria necessário mobilizar a filosofia, pondo-a no comando da ciência, da política e também da religião.

A tão propalada “morte de Deus” é apresentada por Nietzsche como um evento terrível – após anunciá-la, Zarathustra se retira para a solidão do topo da montanha por dez anos -, mas graças ao qual se pode descobrir a vontade como um fato natural que em nós resulta na capacidade de produzir o sobrenatural enquanto ficção, novos deuses, ilusões que nos auxiliam a favorecer o engrandecimento da vida. Sim, porque para quem fora um (grande) filólogo, desistente dessa forma de teologia secularizada que é a filologia, convertido em poeta do pensamento, tendo percebido o mundo verdadeiro como uma fábula e a verdade como ficção, restou a prática de uma escrita criadora ou re-criadora do mundo, fazendo de sua obra o cenário em que se digladiavam as forças políticas e sociais de seu tempo, quando estava em gestação o nosso tempo, colaborando, desse modo, nessa gestação. É assim que para o autor da alentada obra “Nietzsche´s Corps/e”, o marxista althusseriano Geoff Waite, norte-americano da Escola “culturalista” de Frederic Jameson, Nietzsche teria inoculado-se como um vírus na cultura ocidental e, logo, mundial, seguindo antiga receita grega, fornecida, entre outros, por um de seus autores prediletos, Píndaro, para obtenção da imortalidade pela sobrevivência do próprio pensamento nos pósteros, que continuariam falando de quem os pensou ou, principalmente, pensando, até sem o saber, o mesmo que antes já fora pensado pelo morto. Então, nos parece que o modo mais eficaz de se permanecer, dessa maneira, é pensando e escrevendo o impensável ou que até se pensa, mas não se tem coragem de dizer e, muito menos, escrever. 

É certo que postular não ser Nietzsche um anti-religioso é um grande desafio, pois os sinais contrários são bem mais evidentes. Sua conhecida afirmação de que não há fatos morais mas apenas uma interpretação moral dos fatos (Para além do bem e do mal, § 108) – e, além disso, de que não há fatos, só interpretações –, ou que haja o bem ou o mal em si mesmos, Deus ou o diabo (ib. § 37), permite que se reivindique uma total liberdade em questões geralmente tuteladas pelas religiões. Ao mesmo tempo, sua denúncia veemente do ascetismo e do ressentimento contra a vida que ele implica, em nenhum momento aponta para o ateísmo como uma solução, embora seja esse ascetismo patrocinada por religiões – mas não só por elas, como demonstra o estoicismo. Daí vem o seu desprezo pelo cristianismo – mas não por Cristo, como demonstra o seu livro, cujo título, que além de não ter sido definitivamente dado por ele, mas apenas cogitado, entre outros, é mal-traduzido entre nós por “O Anticristo”, quando Cristo, em alemão, é  Christus, e Christ é que é o(a) “cristã(o)”, sendo este o verdadeiro alvo da obra, que inocenta Cristo (tido como um ingênuo, alguém que não sabia sequer o que estava dizendo, como o Príncipe Míchkin do “Idiota” de Dostoiévski ou o “videota” do livro de Jerzy Kosinski e do filme, interpretado magnificamente por Peter Sellers): o único cristão verdadeiro (que morreu na cruz). Entretanto, se do que necessitamos, acima de tudo, é de novas ficções, é preciso que se tenha fé, crença nelas, sendo do que se trata quando uma nova filosofia é postulada – tal como se nova religião fosse.

Desde seus escritos juvenis, Nietzsche demonstra sua preocupação central com o tema da religião e, especialmente, com aquela em que foi educado, o cristianismo. Assim, em “Fatum und Geschichte” (Fado e História) – texto trabalhado, sob outro ponto de vista, pelo estudioso lusitano Nuno Nabais – do princípio de 1862, ou seja, quando nosso A. estava ainda com 17 anos, vem mencionada, logo no início do texto, a necessidade de se buscar uma perspectiva imparcial e atualizada para estabelecer uma avaliação da religião e do cristianismo, reconhecendo, contudo, a dificuldade em superar preconceitos e hábitos desde há muito cultivados, o que requereria um longo tempo para a pesquisa e, mesmo, o amadurecimento do pesquisador, tendo em vista a necessidade de se confrontar com uma autoridade amparada por dois milênios de construções intelectuais das mais sofisticadas, donde uma tal tentativa ser anunciada como digna de um projeto para toda a vida – ao qual Nietzsche parece de fato ter se dedicado. Que nessa época Nietzsche já dispunha de intuições que serão desenvolvidas em sua filosofia posterior, demonstra uma passagem significativa deste texto, em que, após considerar a moral o resultado de um desenvolvimento universal da humanidade, “soma de todas as verdades para nosso mundo”, possivelmente sem nenhum outro significado no mundo eterno, do que ser este resultado de uma direção espiritual no nosso, ele pergunta “se a humanidade mesma não é apenas uma etapa, um período no todo, no devir, se não é uma manifestação arbitrária de Deus (sendo) o homem talvez apenas um animal  desenvolvido a partir da pedra por meio da planta”. E prossegue: “Teria aqui a perfeição sido atingida e não estaria envolvida aí também a história? Não terá nunca esse devir eterno um fim?” Em outro texto, um fragmento de abril do mesmo ano, intitulado “Über das Christenthum”, fica indicado o modo como Nietzsche pode ter chegado através do próprio cristianismo à sua concepção metafísica (e religiosa) imanentista, anti-transcendente, “terrena”, por voltada para a Terra – este ponto será aprofundado adiante -, quando escreve: “que  Deus tenha se tornado homem apenas aponta para o fato de que o homem não deve buscar na eternidade a sua espiritualidade, mas sim fundar sobre a terra o seu paraíso; a ilusão de um mundo ultraterreno trouxe para o espírito humano uma postura falsa em relação ao mundo terreno: esta foi a criação da infância dos povos”. Já em texto anterior, datado de março de 1861, precisamente sobre esse tema, da “Infância dos Povos”, Nietzsche defendia na associação literária “Germania”, que havia fundado um ano antes com amigos de Naumberg – os quais, sintomaticamente, o chamavam pelo apelido de “o Padreco”, o qual mudará quando para satisfazer a expectativa familiar se dirige a Bonn para estudar teologia e lá se tornará o “Cavaleiro Felicidade (Gluck)” na confraria Frankonia, em que, ao contrário de outras similares, imperava mais o gosto pela cerveja, a música e os cabarés do que pelo militarismo –, ser a tarefa da religião cristã contribuir para que se acelere o processo de amadurecimento espiritual dos povos, sem, contudo, patrocinar  uma intromissão violenta e a cisão no desenvolvimento religioso de povos pagãos, uma vez que o fundamento principal do cristianismo é o amor, a ser levado a todos os povos, o mais rápido possível, para conduzi-los “aos braços da única igreja verdadeiramente espiritual”. Já por volta do final de 1865 e princípio de 1866, percebe-se já a presença da revolta, tão característica em Nietzsche, contra a classe sacerdotal, no texto denominado “Pensamentos sobre a Cristandade”, antecedido por outro, de 1865, denominado “Sobre a Vida de Jesus”, em que se debruça sobre as diferenças entre as doutrinas dos diversos evangelistas, destacando aquelas entre João e Paulo, que serão suas principais referências em trabalhos que virá a publicar na forma de livros, especialmente o abaixo mencionado e discutido “O Anticristo” – título que não foi dado pelo A., vale recordar, de passagem, pois se trata de obra retirada de seu espólio literário. 

Em “Pensamentos sobre a Cristandade” já aparece a crítica à associação necessária entre a moralidade e a fé no único Deus verdadeiro, o que considera um erro horrível, de que resulta “uma barbárie quase ridícula”, como é considerado o envio de missionários para a conversão “dos miseráveis pagãos”, como são tidos os povos não cristãos. Essa confusão entre os conceitos de moralidade e o que chama de teísmo torna-se uma perigosa faca de dois gumes nas mãos dos sacerdotes, que terminam se tornando, em parte, vítimas também dessa confusão, quando deixam de pensar por si mesmos para se porem a serviço da igreja, perdendo assim a capacidade de fundamentar a moral de outro modo que não pela crença. Daí vão ter de tentar atingir, por meio de ameaças e recompensas, o que não conseguem através de uma fundamentação filosófica. Então, terminam buscando apoio na revelação que se encontra em um livro de origem “sobre-humana” – aqui chama atenção o emprego de adjetivo derivado do substantivo que depois será central no pensamento de Nietzsche, a saber, o “Übermensch”, o “além do homem”. Caso se duvide da validade da demonstração com base no texto sagrado, continua Nietzsche, ou se será desprezado enquanto descrente, ou se fará remissão a uma filosofia da religião, que sempre prova o que se queria demonstrar, ou então, para acabar a dúvida, se pedirá ajuda ao Estado cristão, como eram em geral os de sua época, no Ocidente. Em resumo, escreve Nietzsche, “os sacerdotes cristãos padecem do mesmo fanatismo que todos os sacerdotes do mundo”. Eles são um empecilho para o progresso, que haveria, no campo da religião, pois sempre pregarão ser a sua própria a única correta e que se basta a si mesma.

Isso porque, se não fora por eles e seus similares, como os ideólogos de todo gênero, se teria a transmutação para além do “humano, demasiado humano”, pelo cultivo em si de um sentimento divino, de, literalmente, entusiasmo, dionisíaco, pois dionisíaca é a divindade que brinca, qual uma criança, inocente como teriam sido Adão, Jesus de Nazaré, o Buda maytrea (sorridente), a um só tempo destruidora e criativa, destruidora para ser criativa, como já Heráclito de Éfesos percebera, amando se ocultar com as máscaras da encenação teatral ou da comemoração carnavalesca, em que dança o “deus desconhecido”, encoberto, ausente, tragicamente morto, perdido, a retornar eternamente, eternamente a retornar, como D. Sebastião, na tradição nostálgico-messiânica luso-brasileira,  deus absconditus, a quem Nietzsche dedicou os seguintes versos, aos dezenove anos:

 

Ao Deus desconhecido.

Mais uma vez antes que eu me lance adiante

E envie meu olhar para frente,

Levanto solitário minhas mãos

Em tua direção, para quem eu fujo,

A quem eu no mais profundo fundo do coração

Reverencio festivamente em altares,

Onde para sempre

Tua voz novamente me convocará.

Ali queima de entusiasmo profundamente inscrita

A palavra: ao Deus desconhecido.

Seu eu sou, se na vermelhidão sacrílega

Também até à última hora permaneci:

Seu eu sou – e sinto o laço da armadilha,

Que na luta me puxa para baixo

E, mesmo que eu fuja

Ainda assim me forçará a servi-lo.

 

Daí já se poder suspeitar que, embora Nietzsche, como é de um modo geral conhecido, se oponha a qualquer manifestação que se apresente como transcendente, de um “mundo além”, bem como a toda forma de monoteísmo, seria incorreto afirmar que ele, simplesmente, propõe o ateísmo como alternativa. Isso porque, para ele, a religião se mostra como parte essencial de toda cultura saudável, ou seja, daquelas do passado e, especialmente, da Antiguidade grega mais recuada, sendo exatamente uma tal saúde que se perdeu na Modernidade, e que ele espera possamos alcançar superando-a, reatando vínculos perdidos com uma tradição, mais do que apostando em um progresso para melhorar, no que teria um papel importante a desempenhar novos deuses, forjados de acordo com uma ordem natural – “o sentido da Terra”, como ele diversas vezes menciona em seu “Zarathustra”, ao que voltaremos mais adiante no presente texto -, para atender aos anseios maiores de uma humanidade que se pretende, buscando-os, também superar, para que viva o “além do homem”. É para semelhante cura da cultura que seria necessário mobilizar a filosofia, pondo-a no comando da ciência, da política e também da religião.

De forma invertida, para Nietzsche, é o que teria feito Paulo, ao criar, propriamente, o cristianismo, como bem demonstra em diversas passagens de sua obra, publicada ou inédita, especialmente naquela totalmente dedicada ao tema, “O Anticristo”. O assunto é minuciosa e competentemente estudado pela pesquisadora argentina Laura Laiseca, mostrando “contra Nietzsche”, as distorções por ele praticadas na doutrina de São Paulo, o que não é de se estranhar, quando se está diante de um pensamento que desenvolve uma paródia caricatural, exagerando traços para produzir um retrato que, sem ser fidedigno, em seu exagero, enfatiza características, as  quais, de todo modo, se pode encontrar no original. É assim que Paulo, por sua conversão, vai aceitar e passar a justificar o “escândalo” de Deus feito homem e morto como um reles escravo na cruz, transformando tal evento em um marco que divide a história da humanidade, e associando seu nome à “revelação” (gr.: apokálypsis) e “divulgação” da “boa nova” (gr.: evangélio). Agora, aplicando a Nietzsche o seu próprio método genealógico e fisiológico, revelador das verdadeiras e ocultas intenções dos que propugnam tábuas de valores fixadas religiosamente, a partir da determinação de sua origem em impulsos ou, como em geral ele os denomina,  “instintos”, oriundos da vontade de poder, torna-se plausível, verossímil – e verossimilhança é o máximo que se pode almejar, aceitando-se o postulado epistemológico ficcionalista nietzschiano – caracterizar como religiosa esta pulsão fundamental em Nietzsche. E isso, dentre outros motivos, pela tentativa de associar seu nome ao que seria um possível novo marco na história da humanidade, encerrada, conforme análises de autores da linhagem do cristianismo histórico, paulino, como Hegel, com o que nele já se apresenta como a morte de Deus, finalizando o período em que se vivia para o futuro, assim como antes do advento messiânico se vivia para o  passado, para iniciar-se o período em que se vive para e no eterno presente, pela experiência, de Nietzsche, do eterno retorno do mesmo.

Para transmitir tal experiência, a qual teve, como é sabido, como uma iluminação, em Sils-Maria, nos Alpes suíços, Nietzsche escreve seu “Zaratustra”, “fala” através deste fundador de religião persa, ou seja, nem grego, nem judeu, e que seria, historicamente, o grande introdutor da associação entre moral e religião, ao vincular a separação que é própria do sagrado à distinção entre o que é bem do que é mal. A ele seria incumbida, então, na ficção – ou “tragédia” – nietzschiana, igualmente, a tarefa de superar tal dicotomia, interiorizada pelo cristianismo, a religião do Deus que se tornou humano, vindo a morrer em sacrifício pela salvação da humanidade, ou, na doutrina que se fez a respeito, daqueles que se reunissem pela crença na ressurreição de Deus feito humano, para assim também ressuscitar, uma forma extremamente engenhosa de, em um mesmo movimento, poder estender a bondade e a maldade a todo o gênero humano, ao contrário do que sempre se havia feito até então, onde bons são os membros da comunidade a que se pertence, e maus, os outros. 

Mais do que os indivíduos, os quais precisam se tornar conscientes de que são vontade de poder, Willen zur Machte, ou seja, mais literalmente, “vontade para o poder” (de criar, melhor se diria, e não, de subjugar, retendo assim a expansão dela, da vontade e sua potência), quem precisa de fé e de um deus para ser o seu destinatário são os povos, podendo mesmo se dizer, dentro do espírito nietzschiano, com apoio em Heidegger, que são os deuses que criam os povos. Como diria o pensador dinamarquês Kierkegaard, com tanta afinidade com Nietzsche – para cuja obra lhe teria chamado atenção, muito tardiamente, em 1888, o filósofo escandinavo George Brandes –  em sua obra clássica sobre o conceito de angústia (Angst), a realidade, antes de tudo, é por nós experimentada  – aperceptivamente, diria Husserl – como um possível ser, que se toma como real porque nele se crê. A crença no mundo, em um certo mundo, portanto, é um a priori para o conhecermos, e também para transformá-lo, o que não se pode obter sem antes – ainda que aperceptivamente -, interpretá-lo (ao contrário do que sugere Marx, em sua conhecida tese contra Feuerbach). Portanto, a transformação almejada, seja qual for, é resultado de uma prática orientada teoricamente, i. e., de um saber prático, sim, mas produtivo, logo, “poiético” -, e não de uma ação enquanto mera práxis ou de uma “téc(h)n[(ét)ica]”, reprodutiva.  Um saber prático pode ser caracterizado como aquele que indica como algo pode ser feito, uma vez que se decidiu (ética, política e/ou juridicamente) fazê-lo, e como fazê-lo.

Aqui vale lembrar, como que de passagem que teologia foi considerada um tal saber prático por John Duns Scot (1266 – 1308). Também

como ele, pode-se defender que do Ser de Deus, o criador, ser-em-si, deve-se falar como do ser dos entes, as criaturas, em um sentido unívoco e não, por exemplo, como em Tomás de Aquino, em sentido análogo, tal como demonstrou seu sucessor na cátedra dominicana de Paris, o místico Mestre Eckhart, que também tanta influência teve em Heidegger, com sua afirmação da absoluta diferença (ontológica), estranheza, do Ser  – logo, também de Deus, que é enquanto ser, e não enquanto ente, ainda que supremo, e maximamente superior, donde podermos dizer que Ele, ao contrário de nós, não e(ks)iste, pois como já afirmavam os medievais, na esteira de Duns Scot, n’Ele coincidem a essência e a existência.  Do que se trata, então, é de dar ensejo a uma recuperação de um saber apto a fornecer uma orientação, ou re-orientação, na busca de sentido para as ações humanas, nas condições adversas da atualidade. Cabe a todos assumir uma parte de tal tarefa, de proporções gigantescas, percebendo o quanto é urgente e necessária e, se é assim, há de ser também possível dela nos desincumbirmos. O que se propõe aqui é uma mera indicação neste sentido, na esperança de pelo menos estimular outros a fazerem sua própria colaboração. E isso pensando que assim teremos a possibilidade de invocar e, com isso, (re)criar o(s) Deus(es) protetor(es) da Cidade planetária, ameaçada e ameaçadora, a fim de nos salvar{[e(m]os)} da crise apocalíptica que nos acomete desde que ingressamos na era do que se vem propondo denominar de “antropoceno”,  quando os que vivemos num planeta em que uma certa espécie biológica, auto-denominada Homo sapiens sapiens, desenvolveu um modo de se impor, atacando para defender-se de tal modo que ameaça a permanência de tudo o que naquele planeta, o nosso, veio ou ainda pode vir a existir.  

  Como se pode ler no “Anticristo” (§16), “um povo que ainda crê em si cultiva o seu próprio Deus. N´Ele ele reverencia as condições que o permitiram prevalecer, suas virtudes: seus projetos, os seus prazeres em si mesmos, seus sentimentos de poder, em um ser a quem se pode dar graças… Sob tais condições, a religião é uma forma de agradecimento”. A saúde e crescimento de um povo estão ligados às suas crenças, pois os fortes têm fé, enquanto os fracos não têm nada.