BOLETIM FILOSÓFICO XII BY WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO

BOLETIM FILOSÓFICO XII BY WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO


Filosofia para Wittgenstein.

Willis Santiago Guerra Filho*

Inicialmente, cabe dizer algo sobre a vida e obra do filósofo Ludwig Josef Johann Wittgenstein, que de alguma forma possa ajudar a entender sua concepção da filosofia. Nasceu em 26 de abril de 1889, na “Viena fin-de-siècle” (v. obra com esse título de Carl Schorske), à época três vezes maior do que é hoje, com seus 6 milhões de habitantes, capital de uma das “super-potências”, de então, o Império Austro-Húngaro. Precisamente em torno dessa última década do século passado é que, com atraso considerável em relação ao resto da Europa, inicia-se naquele país a ascensão política da classe média liberal, sua “modernização”. A burguesia austríaca, contudo, a diferença daquelas da França ou Inglaterra, não cortou completamente os laços com a aristocracia e o imperador, mas antes procurou assimilar seus valores. E esses eram valores primordialmente estéticos, à diferença daqueles tradicionalmente associados à cultura burguesa, com seu legalismo, racionalismo cientificista e puritanismo moral. Em Wittgenstein, portanto, estaria presente, como em muitos outros conterrâneos seus contemporâneos, essa tensão fundamental entre o lúdico-estético e o moralista-científico. 

O acesso da alta burguesia austríaca à aristocracia se dava, então, através do mecenato, mais do que pelo patrocínio de carreiras políticas. Assim é que, enquanto os Wittgenstein, magnatas da indústria siderúrgica, tinham como frequentador habitual de sua residência, à época do nascimento de Ludwig, artistas como Johannes Brahms, e, posteriormente, apoiariam o movimento secessionista do “novo estilo” (Jugendstil) ou art-noveau, ao ponto de seu líder Gustav Klimt retratar-lhe a irmã, Margaret (em 1905), a família análoga da Alemanha, os Krupp, investia na carreira política de um artista medíocre e frustrado, que fora colega de ginásio de nosso Ludwig: Adolf Hitler. 

A vida de Wittgenstein parece ter se orientado pelo ideal estético de perfeição – “Ética e estética são uma só coisa”, escreveria na prop. 6.421, parêntese, do “Tratado Lógico-filosófico” -, o qual, porém, ele não buscou realizar através das artes, em que pese sua enorme paixão pela música – a um de seus amigos – que veio a se tornar grande especialista em história da filosofia, sobretudo medieval -, Drury, teria inclusive se queixado da dificuldade que haveria em entender sua filosofia pela impossibilidade de aquilatar a influência dessa sua paixão na formulação de seus pensamentos (apud Werner Spaniol, “Filosofia e Método no Segundo Wittgenstein”, São Paulo, Ed. Loyola, 1989, p. 132) -, e algum trabalho feito em escultura, jardinagem e arquitetura, na segunda metade da década de 1920. Projetou e construiu pessoalmente uma casa para a irmã, tendo na retidão de seus traços em perfeita simetria e na obediência aos ditames da mais completa funcionalidade seus parâmetros orientadores, sintonizados com o ideário da arquitetura moderna, donde ter despertado a admiração de Adolf Loos, principal representante do novo estilo arquitetônico à época, na Áustria. A atividade com que primeiro revelou sua vocação, porém, teve caráter técnico-científico: a de construtor de inventos mecânicos, chegando até à engenharia aeronáutica. Projeta na primeira década do século um motor a jato e um propulsor. Os intensos estudos de matemática, que certamente foram requeridos para a realização de tais projetos, o teriam levado a despertar o interesse pelos fundamentos da matemática, tomando contato com os estudos pioneiros a respeito de Russell e Frege. Partiu, então, para Cambridge, a fim de estudar com o primeiro, em 1912.

No final do ano letivo, Wittgenstein dirigiu-se ao professor – de quem já tinha chamado a atenção, por seu jeito esquisito -, e perguntou-lhe se o considerava um completo idiota. Russell disse não saber responder e indagou do motivo da pergunta, ao que teria retrucado Wittgenstein: “Sim, porque se for um completo idiota vou me dedicar à aeronáutica; se não, vou me tornar filósofo”. Russell pediu-lhe então que durante as férias fizesse algum trabalho em filosofia, para que pudesse avaliar e, de posse dele, parece não ter tido dificuldade em dar o seu veredicto (Russell, “Retratos de Memória”, trad. Brenno Silveira, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1958, p. 21). Tratava-se daquele que talvez mais tenha contribuído para a “guinada linguístico-pragmática” que daria a filosofia contemporânea, um homem de gênio semelhante ao de Leonardo da Vinci, como penso poder-se perceber no rápido esboço aqui traçado do que foi sua pessoa. 

Em 1913, Wittgenstein (abrev. “W.”) herda imensa fortuna de seus pais, a qual doará no princípio da década seguinte para seus oito irmãos, a quem tamanha quantidade de dinheiro, segundo teria declarado, não faria mal, visto já disporem de tanto. Isso não sem antes instituir um fundo de auxílio a artistas. Dentre os aquinhoados constam os poetas de sua predileção, Rainer Maria Rilke e Georg Trakl. Data desse ano suas “Anotações sobre Lógica” (“Aufzeichnungen über Logik”), manuscritos onde se encontra já muito do conteúdo de sua futura primeira obra – também a única, de caráter filosófico, publicada em vida -, o “Tratado Lógico-filosófico (“Logische-philosophische Abhandlung”) – ou “Tractatus Logico-Philosophicus” (abrev. “Tractatus” ou, simplesmente, “T.”), como é mais conhecido, na denominação sugerida por G. E. Moore para o título  da tradução inglesa. 

Nas “Anotações”, no final do quarto (e último) manuscrito, W. apresenta sucintamente sua concepção do que seja a filosofia: um corpo de conhecimento formado a partir de descrições, jamais de deduções, e descrições não do mundo propriamente, mas sim das assertivas que a ele se reportam, produzidas com legítima pretensão de veracidade apenas pelas ciências naturais. “A filosofia é a doutrina da forma lógica das assertivas científicas”. Adiante, indica que investigar essa forma lógica é, na verdade, buscar a forma geral de toda assertiva – a “allgemeine Form des Satzes” da proposição 6 do “Tractatus” -, e escreve, de um modo em que parece se misturarem o W. dos primórdios com aquele da fase tardia: “Juízos, ordens e perguntas situam-se conjuntamente no mesmo plano, pois a eles todos é comum a forma da assertiva (Form des Satzes), sendo isso o que nos interessa (grifo do A.). A estrutura da assertiva é o que nos interessa, o resto vem por si mesmo. A linguagem comum, porém, esconde a estrutura da assertiva.” Daí porque “desconfiança em relação à gramática é a primeira condição do filosofar”. 

Em 1914, W. alista-se como voluntário no exército austríaco envolvido em campanha na I Guerra Mundial. Data do dia 22.8.14 a primeira anotação em seus “Diários” (“Tagebücher”), parte do que seus editores posteriormente denominariam “Prototractatus”, por se tratarem de formulações que seriam apresentadas de modo sistemático no “Tractatus”, concluído ao final da guerra, em 1918, e publicado em 1921. A primeira frase que ali aparece é: “A lógica deve cuidar de si própria”  –  “Die Logik  müß für sich selber sorgen” -, inserida na prop. 5.473 do “Tractatus”. Com isso, parece estar querendo dizer que seu interesse se voltava mais para escrever sobre a lógica e seus fundamentos, do que propriamente desenvolvê-la. Dez dias depois faz anotação de pensamento que deriva desse primeiro, constante da prop. 5.4733, segundo o qual toda possível assertiva (lógica) se encontra corretamente formulada (“rechtmäßig gebildet”) tal como se apresenta, e se alguma por acaso mostra não ter sentido, a razão seria a de que não se atribuiu significado (por meio de denotação) a uma qualquer de suas partes constitutivas, os signos ou “sinais” (Zeichen) – mesmo quando cremos ter feito isso. No dia seguinte, W. se pergunta como se compatibiliza a tarefa tradicionalmente atribuída à filosofia com sua concepção dela, insinuando que para ele essa tarefa deveria ser a de analisar assertivas em busca de signos que nada significam, por não designarem nada. Em 22.1.15 escreve: 

“Todo o meu trabalho consiste em explicar a essência da proposição.

Isso quer dizer, fornecer a essência de todos os fatos, cuja imagem (Bild) é a proposição.

Fornecer a essência de todo o Ser. 

(E aqui Ser não significa existir – senão isso seria sem sentido)”.

Em 2.8.16, em meio a formulações metafísicas de toda ordem, conclui ter seu trabalho se expandido do estudo dos fundamentos da lógica para o da essência do mundo. (V. tb. T., prop. 5.4711: “Fornecer a essência da proposição significa fornecer a essência de toda descrição e, logo, também a essência do mundo”.) Mais de um ano depois, numa das últimas anotações desse diário, datada do dia 2.12.16, W. escreve o que viria a ser o conteúdo da antepenúltima proposição do “Tractatus”, a 6.53, onde sugere ser o método correto em filosofia mostrar a quem formulasse algo de metafísico só ter sido capaz de fazê-lo porque havia deixado de atribuir significado a signos de suas assertivas. 

Na  última anotação desses “Diários”, W. coloca aquela que para Albert Camus (v. “O Mito de Sísifo”, principio) se apresentará como a única questão filosófica verdadeiramente relevante: a do suicídio. Para ele, partindo dela se pode atingir um esclarecimento sobre a própria essência da ética, pois o suicídio seria objeto de uma espécie de “proibição primordial”: “Se o suicídio é permitido, então tudo é permitido. Se alguma coisa é proibida, então o suicídio é proibido”. Sua conclusão indica que teria optado pela primeira assertiva, não vendo o suicídio, assim como qualquer outra ação  humana ou fato da natureza, em si mesmo, como bom ou mau – aqui se  nota  a influência de alguém que foi bastante admirado por W., o polêmico publicista vienense Karl Kraus, que tanto se bateu pela descriminalização de condutas tidas como imorais, tais como o homossexualismo (cf. os ensaios jornalísticos reunidos em K. Kraus, “Sittlichkeit und Kriminalität”, Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1987, esp. “Perversität”, p. 301ss.). Realmente, tendo como  base relato de Russell (loc. ult. cit.), sabe-se da disposição de suicidar-se que em Cambridge acometia W., movido ao que parece por sua incapacidade de resolver plenamente os problemas, a um só tempo lógicos e morais, com que se deparava. 

No autor do “Tractatus”, nota-se a grande influência do “Begriffsschrift”, obra publicada por Frege em 1879 – e “descoberta” por  Russell em 1901, como ele próprio relata (cf. ob. cit., p. 19) -, onde retomava o ideal leibniziano de se construir uma linguagem apenas com palavras denotativamente unívocas, livre das ambiguidades e imperfeições da linguagem comum, para poder expressar corretamente o conteúdo objetivo de toda proposição.

Com  o “Tractatus”, em suas sete proposições básicas e naquelas daí derivadas, W. pensa ter resolvidos todos os problemas da filosofia (v. “prefácio”, in fine) – pelo menos aqueles (poucos) que se poderia resolver, por serem aqueles que se poderia legitimamente colocar, como deflui, v.g., da prop. 6.5: “A uma resposta que não se pode enunciar, também a pergunta não pode ser enunciada. O enigma não existe. Se uma pergunta pode ser colocada, então ela também pode ser respondida”. Dentre esses problemas, infelizmente, não se situam os problemas existenciais (Lebensprobleme), como aponta a prop. 6.52: “Sentimos, que mesmo caso todas as questões científicas fossem resolvidas, nossos problemas da vida sequer teriam sido tocados”. Tais problemas se resolvem quando não mais são colocados, de acordo com a prop. 6.521: “A solução dos problemas da vida se nota com o desaparecimento desses problemas”. Daí se encerrar o livro com a famosa prop. 7, expressando o pensamento anunciado já no prefácio da obra como a síntese de todo seu sentido: sobre o que não pode-se falar (com sentido), deve-se calar. 

Quando saiu publicado o “Tractatus”, Wittgenstein já estará ganhando a vida como professor primário da rede pública, em cidadezinha do interior da Áustria, Trattenbach, de onde escreveu a Russell, se queixando de ali ter encontrado as pessoas mais perversas do mundo (cf. Russell, ob. cit., p. 22). A pouca paciência que tinha com seus alunos de 9 a 10 anos de idade procurou compensar com a elaboração de um dicionário com seis mil palavras, publicado em 1926,  ano em que abandona o magistério, pensando em entrar para um mosteiro, o que veio a fazer efetivamente, mas na qualidade de ajudante de jardineiro.

O ano de 1929 marca o seu retorno à filosofia, quando se dirige a Cambridge com bolsa de estudos para o doutoramento, o qual obtém no mesmo ano, com o “Tractatus”, segundo parecer de Russell e G. E. Moore. Seu interesse pela filosofia parece ter sido reavivado – segundo declaração do próprio W., no “prefácio” das “Investigações Filosóficas” – pelo matemático de Cambridge FRANK RAMSEY, o qual já em 1923 o procurou para discutir o “Tractatus”, fazendo críticas que o levaram a reconhecer ter incidido em “graves erros”. O primeiro registro que se têm da produção dessa sua segunda fase é a palestra sobre a ética, pronunciada em Cambridge, e reconstituída a partir de seus rascunhos e de anotações de presentes ao evento, especialmente seu amigo Friedrich Waismann. Ali, reafirma sua posição a respeito, expressa no “Tractatus” (prop. 6.421), de que aos enunciados da ética faltam o referencial semântico capaz de conferir-lhes sentido e permitir avaliar-lhes em seu conteúdo de verdade. A ética, enquanto tentativa de estabelecer um sentido para a existência humana, vai levar a uma colisão contra os limites da nossa linguagem: mais tarde ele dirá ser tarefa da filosofia constatar quando se dá semelhantes “abalroamentos” (cf. “Investigações   Filosóficas” – abrev. “Investigações”, ou, simplesmente, I.F. -, § 119). 

Contudo, não é por carecerem de sentido, em termos lógico-filosóficos, e não poderem ter resposta que se possa dizer verdadeira, que problemas éticos, e outros congêneres – passíveis de serem agrupados sob a denominação genérica de “metafísicos”, partindo da suma divisio da filosofia, proposta por W. no final do já citado quarto manuscrito das “Anotações sobre Lógica”, de 1913, em duas partes, a lógica e a metafísica, sendo essa última a base – se tornam desprovidos de enorme significação na vida das pessoas, a quem essas questões se apresentam como de uma importância inexcedível, já que podemos mesmo ser definidos como seres que colocam tais questões, as quais só aparecem por causa da linguagem que utilizamos. Daí que o retorno de W. à filosofia vai ser marcado por uma preocupação com o sentido que adquirem as palavras ao serem empregadas na linguagem comum, já que aí estariam os alicerces de toda construção intelectual humana, seja no terreno lógico-matemático, seja naquele metafísico. 

No curso da década de `30, W. reúne em torno de si um grupo de estudiosos que serão profundamente influenciados por seus ensinamentos e se tornarão, por sua vez, autores de obras influentes em seus respectivos campos de estudo, como é o caso de John Wisdom e Gilbert Ryle, filósofos, líderes respectivamente dos chamados Grupos de Cambridge e Oxford; Herbert Hart, talvez o filósofo do direito mais influente da segunda metade desse século (quem conhece seu pensamento, pode avaliar o quanto dele se encontra in nuce no § 84, 1a. parte, das “Investigações”); Georg v. Wright, grande impulsionador da lógica deôntica; Peter  Winch, cujos estudos de metodologia das ciências sociais influenciariam análises compreensivas e qualitativas como aquelas da etnometodologia (sobre a afinidade do pensamento de W. com a proposta “etnometodológica” e para uma apresentação crítica das idéias de WINCH cf. ANTHONY GIDDENS, 1978: 37, 46 ss.), etc. – uma outra lista, igualmente longa, pode ser feita com os nomes daqueles expoentes do pensamento contemporâneo que tiveram sua produção intelectual fertilizada por W., como é o caso do historiador do  pensamento científico e epistemólogo norte-americano Thomas Kuhn, autor de “As Estruturas das Revoluções Científicas”, cuja noção-chave de  “paradigma” forneceria uma explicação da atividade científica em termos de um jogo de linguagem feito a partir de regras previamente aceitas pela forma de vida da comunidade científica, e do filósofo alemão  Karl-Otto Apel, que em sua “pragmática-transcendental” busca,  basicamente, conciliar o pragmatismo de W. e da Escola norte-americana fundada por C. S. Peirce com a filosofia alemã de tradição idealista e hermenêutica. 

Os trabalhos desenvolvidos nesse período se apresentam como rascunhos elaborados sem a intenção de serem publicados – embora posteriormente os  inventariantes de seu espólio intelectual os tenham editado, com títulos como “Observações Filosóficas” ou “Gramática Filosófica” -, ou então como preleções ditadas em inglês, entre os anos de 1933 e 1935, e publicadas sob o título de “Caderno Azul” (Blue Book) e “Caderno Marrom” (Brown Book). Em 1936 viaja para a Noruega, a fim começar a escrever, para publicação, o que viria a ser a obra representativa de sua produção filosófica dessa segunda fase, as “Investigações Filosóficas”, publicada postumamente (sem o imprimatur do A., portanto), em 1953. 

Em 27 de abril de 1951 – um dia após completar 62 anos, portanto -, o médico com quem se tratava do câncer de próstata, detectado dois anos antes, e na casa de quem estava morando, desde que se agravou o quadro, anunciou-lhe que havia chegado sua hora. Sua resposta foi: “ótimo!”, e as últimas palavras antes de perder a consciência: “Diga-lhes que eu tive uma vida maravilhosa”. A morte se deu dois dias depois. 

Na verdade, ele tinha levado a vida que, segundo anotação de seu diário, feita em 13.8.16, permite que se seja feliz, em um mundo com tantas misérias: a vida dedicada ao conhecimento, com a recusa igualmente das facilidades que no mundo se oferecem. E, conforme outras observações suas, anteriores (de 8.7.16), o medo da morte é o maior sintoma de que se leva uma vida falsa, e, logo, infeliz, pois “quem é feliz, não pode temer nada, nem a morte”, já que ser feliz é viver no presente, onde jamais há morte, na medida em que ela “não é um acontecimento da vida. A morte não se vivencia” (T., prop. 6.4311). A morte não ocorre no mundo, mas sim ao sujeito, que é o limite do mundo, sem a ele pertencer – como nossos olhos não pertencem ao nosso campo de visão. (V. no “Tractatus”, as props. derivadas de 5.6, que enuncia: “Os limites de minha linguagem significam os limites do meu mundo”.) 

Ser bom ou mau, feliz ou infeliz, seguindo preceitos éticos, buscar a expressão de emoções na arte e o conhecimento na ciência, crer ou não em Deus, segundo alguma religião, se não altera o mundo, certamente expande ou reduz seus limites, que são dados no sujeito, de cuja consciência do caráter único de  sua vida brotam a filosofia, a religião, a ciência e a arte. (Cf. anotações dos dias 16.6 a 2.8.16 – bem como as props. correspondentes do “Tractatus”, especialmente as derivadas de 6.43) 

Feliz se torna quem alcança conhecimentos como o de que o mundo independe da vontade do sujeito, de um Eu individual (T., prop. 6.373), e que esse mundo se mostra como se dotado de uma outra vontade, a de (um outro) Deus, contra a qual a vontade individual não pode se contrapor, mas sim harmonizar-se, para que seja feliz o indivíduo. Daí porque “em certo sentido, não-desejar parece ser o único Bem” (anotação do dia 29.7.16), a mesma conclusão que teria levado Buda à iluminação, definida como a libertação de todos os desejos, extintos pela “falta de combustível”, que é, literalmente, o significado de nirvana.

Há quem veja uma conotação “paralisante” do político nessas idéias de W. Aqui, porém, esse último não faria mais do que inserir-se numa linha do pensamento germânico que se pode ver em Leibniz com seu “melhor dos mundos possíveis” o predecessor, mas que se evidencia propriamente no idealismo do princípio do século passado, quando um Fichte afirmava coisas tipo: “Seja o que for que exista realmente, existe por absoluta necessidade na precisa forma em que existo”. Também HEGEL, quando no “prefácio” da “Filosofia do Direito”, compara a filosofia à coruja de Minerva, que chega depois dos fatos estarem consumados, estaria preconizando ao filósofo pôr-se de acordo com a realidade, sem pretender direcioná-la. O próprio Marx estaria sob a influência desse pensamento, ao preconizar a necessidade da passagem histórica do capitalismo para o socialismo, independentemente de qualquer doutrina que a isso se opusesse ou que a impusesse. Em Nietzsche o “além-homem” se distingue por sua aceitação amorosa do destino do mundo, incluindo o que tenha de negativo e perverso. É esse amor fati, a aceitação da necessária constituição histórica do humano, que se encontra em Heidegger, cujo pensamento já foi resumido na sentença: “Deixar que o ser seja”. (Cf. N. Abbagnano, “A Sabedoria da Filosofia”, trad. Ephraim Ferreira Alves, Petrópolis,  Ed. Vozes, 1989, p. 42 ss.) Nesse sentido, toda essa linhagem de filósofos concordaria com WITTGENSTEIN, quando diz, nas “Investigações”, § 124: “A filosofia deixa tudo como está”.

Na “última versão” do pensamento de W. a filosofia aparece, da mesma forma que todas as demais atividades designadas por palavras, como algo cujo significado há de se mostrar dentro de um específico “jogo de linguagem” (Sprachspiel – I.F., §§ 7, 23, 81/83, 564, 567 e passim), havendo diversos desses jogos em que a palavra pode ser empregada legitimamente, sem que haja necessariamente um determinado traço comum a todos esses empregos, no qual se possa identificar algo como a “essência da filosofia”. O que há são apenas “semelhanças de parentesco” (Familienähnlichkeit – I.F., §§ 66/67). A filosofia, então, continua a ser concebida por W. do mesmo modo que se revelou já nos seus primeiros escritos, de 1913, como atividade meramente descritiva do mundo tal como ele se apresenta figurado na linguagem, científica ou comum, sem a pretensão de acrescentar informações e conhecimentos novos a respeito dele, construindo um sistema explicativo ou coisa que o valha, assim como tradicionalmente se vinha fazendo em filosofia, pelo menos até Hegel. “Nosso erro é procurar uma explicação lá onde deveríamos ver os fatos como ‘fenômenos primitivos’. Isto é, onde deveríamos dizer: joga-se um jogo de linguagem” (I.F., § 654). 

Note-se que W. não despreza as outras formas de fazer filosofia, o que se evidencia na própria reação quase violenta que teve diante da sugestão de seu amigo Drury, de que intitulasse as “Investigações” simplesmente de “Filosofia”, pois isso poderia dar margem a que pensassem se resumir toda ela apenas ao que ali era feito (v. Spaniol, ob. cit., p.137). Segundo GILBERT RYLE (1967: 3), o objetivo principal de W. em filosofia seria precisamente a determinação do que, afinal, fazem filósofos (e lógicos), ao produzirem filosofia, e como deveriam desempenhar essa tarefa. A filosofia, entendida como atividade, é uma performance, na qual se pode ter um desempenho habilidoso, obtendo – ou não – sucesso naquilo a que se pretende realizar com ela. 

Aqui, cabe lembrar uma objeção feita a W., no que concerne ao seu intento de buscar, com a filosofia, esclarecimento sobre ela própria, o que seria algo passível de ser considerado como absurdo, sem sentido, com base no que ele mesmo considera como tal. Realmente, durante toda sua obra W. demonstrou uma preocupação básica com a identificação do que haveria de ser tido como um proferimento “absurdo” (unsinnig), desprovido de significado, seja na linguagem técnica do discurso científico, seja em linguagem natural, podendo mesmo a tarefa da filosofia ser concebida como a busca não da verdade, como se pensava durante toda sua história, mas sim dessa delimitação entre o que faz ou Não sentido se dizer (assim, RYLE, cit.: 4). Segundo uma das proposições do “Tractatus”, a 3.332, não teria sentido pretender que uma proposição enuncie com sentido algo sobre si mesma, o que, portanto, torna ela própria, e toda a obra onde ela se acha inserida, sem sentido – conforme, aliás, enuncia a proposição 6.54. Isso, porém, não significa invalidar o trabalho em filosofia, pois só operando com uma linguagem cujos termos tenham um referencial semântico, como é o caso daquela das ciências empíricas, é que se pode legitimamente pretender que as sentenças tenham ou não sentido. Não há, portanto, incoerência nenhuma na tentativa do “Tractatus”. 

Também nas “Investigações Filosóficas” seria incorreto detectar o que o já referido filósofo frankfurtiano K.-O. APEL, em sua filosofia pragmática-transcendental, chama de “contradição performativa” – pela qual não se faz o que se disse pretender fazer -, na medida em que, apesar da manifestação do § 121, onde se desautoriza pensar que “quando a filosofia fala do uso da palavra ‘filosofia’, deveria haver uma filosofia de segunda ordem”, a tentativa de W. terminaria levando a que se conceba a filosofia como “jogo dos jogos, cuja especificidade é uma reflexão sobre as estruturas constitutivas universais de todos os jogos” (J. M. ARRUDA, “Comunicação, Intersubjetividade e Autonomia”, mimeo., Porto Alege, 1990, p. 16), por ser ela que faz jogos de linguagem para entender o significado das palavras – inclusive a palavra “filosofia”. Jogando linguisticamente com essa palavra se aprende algo sobre a multiplicidade de sentidos em que é empregada, assim como jogando com a palavra “jogo” etc. 

Portanto, o que se pode esperar da filosofia, tal como é praticada por W., não é que diga algo com pretensão de ter sentido e ser verdadeiro – tarefa especificamente atribuída às ciências empíricas -, mas sim que mostre, de maneira eficaz, num jogo de linguagem – o qual, como todo jogo, obedece a regras e deve ter “graça” (Witz – v. I.F., § 564) -, o que é dito com sentido e aquilo que é sem sentido dizer.2 O filósofo, assim sendo, não estaria condenado a apenas tentar “dizer o indizível”, produzindo enunciados sem sentido, na medida em que sua fala  for eficaz no cumprimento de seu papel esclarecedor – e destruidor – das confusões causadas pelas generalizações indevidas cometidas no uso filosófico da linguagem, dissipando névoas de filosofia que se formaram a partir de uma gota de gramática (v. I.F., § 5 e parte  II,  XI, p. 214 da ed. bras., Col. Os Pensadores, 2ª. ed., São Paulo, Ed. Abril, 1980), restringindo nossa “visão panorâmica” do horizonte em que se nos apresenta o mundo (I.F., § 122). 

Também na própria determinação da natureza da filosofia deve-se evitar cometer o erro de pretender forjar um conceito geral, passível de abranger tudo quanto já se fez ou venha a fazer sob esse nome. Daí porque se teve o cuidado de pôr entre aspas a palavra “conceito”, no título do presente trabalho. Não há em W. a pretensão de forjar um conceito de filosofia ou de qualquer outra coisa. É certo que em suas investigações se ocupa de conceitos, tal como é tradicional em trabalhos filosóficos (I.F., § 570: “Conceitos nos levam a investigações. São a expressão de nosso interesse e o dirigem”), mas não com  a preocupação de apresentar outros que seriam mais acertados que os já existentes – “a filosofia deixa tudo como está” -, mas sim procurando mostrar, empregando-os em diversos contextos ou “jogos de linguagem”, que eles não podem realizar sua finalidade de precisar o que sejam os objetos da conceituação fora de qualquer contexto, “em geral” – “mas, um conceito impreciso é realmente um conceito?” pergunta-se (em I.F., § 71), e observa-se, em outro contexto, que “’conceito’ é um conceito vago” (“Bemerkungen über die Grundlagen der Mathematik”, Werkausgabe, 5a. ed., Bd. V, Frankfurt a. M., Suhrkamp, 1991, § 49). Por isso, penso que se pode dizer que com W., após dois mil anos de busca de definições apodíticas em filosofia, da idea de cada coisa e entidade, surge uma filosofia “pós-socrática”… 

O importante para W. é que se desenvolva uma habilidade em praticar o jogo de linguagem “filosofia”, a qual deve ser ensinada, como as demais, jogando o jogo, dando o exemplo, exercitando (v. I.F., §§  133 e 208), produzindo filosofia, adquirindo, assim, uma determinada “forma de vida” (em alemão, Lebensform – noção complementar à de “jogo de linguagem” – cf. I.F., §§ 19 –  “…representar uma linguagem significa representar-se uma forma de vida” – e 23: “A expressão ‘jogo de linguagem’ deve aqui salientar que o falar  da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida”). 

A filosofia, portanto, para W., não se mostra apenas com aquelas características negativas e auto-destrutivas, que lhe atribuem alguns intérpretes, tomando passagens como o § 133 das “Investigações”, abaixo transcritas (cf., v.g., Manfredo A. de Oliveira, “A Filosofia na Crise da Modernidade”, São Paulo, Loyola, 1989, p. 100/101). Segundo Ryle (em: “Ryle, Strawson, Austin, Quine”, trad. Andréa Maria Loparic, Col. Os Pensadores, 2a. ed., São Paulo, Ed. Abril, 1980, p. 69), os ensinamentos de W., incluindo aqueles contidos no “Tractatus”, foram explorados nesse sentido negativo especialmente pelo Círculo de Viena, na medida em que os municiava para alcançar o objetivo de demolir a filosofia enquanto pretensa ciência de realidades transcendentes. Efetivamente, para W., o objeto da filosofia seria transcendental, pelo menos enquanto ela se ocupar de temas como a lógica, a ética e a estética, qualificados como tais, no “Tractatus” (v. props. 6.13 e 6.421), e como “condição (Bedingung) do mundo”, no “Prototractatus” (dia  24.7.16), pois não lidariam com realidades do mundo – os fatos (Tatsachen) e possíveis combinações deles em “estados de coisas” (Sachverhalten) -, mas sim que se manifestam no sujeito que o percebe (e delimita). 

Ryle refere, ainda, que na Inglaterra se deu aplicação mais construtiva do pensamento de W., “com o objetivo de enunciar as funções positivas que as proposições filosóficas desempenham e que não são desempenhadas pelas proposições científicas. Na Inglaterra, em geral, o interesse se concentrou na descrição que W. apresenta da filosofia como atividade de clarificação ou de elucidação das significações de certas expressões utilizadas, por exemplo, pelos cientistas, isto é, o interesse se concentrou nas virtudes medicinais da explicação de W. a respeito de coisas que não têm sentido. Em Viena, de maneira geral, o interesse, ao contrário, se concentrou nas potencialidades letais da explicação de W. a respeito das coisas que não têm sentido”. 

Realmente, no mencionado § 133 das “Investigações”, se fala no emprego de métodos em filosofia como sendo terapias que, no sentido freudiano, desrecalcasse o que houvesse implícito em nosso discurso como carecedor de sentido, explicitando-o na linguagem – também como na psicanálise: é conhecida a admiração, bem como a postura crítica, de W. em relação a Freud, a quem costumava mandar sonhos para que interpretasse, através de sua irmã, e de quem chegou a se dizer “discípulo” (cf. A. G. Gargani, “Ethics and Aesthetics in the Definition of the Self. Freud and Wittgenstein”, em: Grazer Philosophische Studien, vol. 42, Amsterdam, 1992, p.  223) – , para assim obter a almejada “clareza  completa”, com  o desaparecimento completo do problema filosófico de que se padecia. Isso não significa dizer que pretendia alcançar o desaparecimento completo de todos os problemas filosóficos e, com isso, da própria filosofia. No “Grande  Manuscrito”, donde se originam as “Investigações”, na parte do texto que viria a ser o § 133, após a afirmação de que se tratava de resolver (completamente todos os) problemas, e não um só problema, há um “diálogo” suprimido da versão definitiva, mas que é bastante significativo: “’Mas então nós nunca chegaremos ao fim do nosso trabalho!’ Claro que não, porque não há fim”. (Apud Kenny, “The legacy of Wittgenstein”, Oxford, Basil Blackwell Publ., 1984, p. 46.) Esse trabalho, como refere em outra passagem, é um trabalho semelhante ao que fez em arquitetura, cujo objeto a ser trabalhado é a própria pessoa, acometida de problemas filosóficos, algo que não se pense ocorrer apenas a filósofos, mas que seria inerente a todos os que possuem linguagem (cf. Spaniol, ob. cit., p. 139), pois ela é já carregada de uma filosofia embrionária, de toda uma mitologia – e, no caso das linguagens ocidentais, segundo Heidegger, de toda uma metafísica onto-teo-lógica -, que nos “enfeitiça o entendimento” (I.F., § 109), contra o que se deve lutar ao praticar filosofia – e não, produzir um encantamento ainda mais poderoso, como em geral se dá entre os que filosofam no sentido tradicional. Filosofia, portanto, é algo que cada um deve – e pode – fazer por si mesmo, tratando seus próprios problemas para, sem eles, ficar bem: “Em filosofia não se chega a conclusões. (…) Ela apenas constata o que cada um lhe concede”. (I.F., § 599.) 

Trata-se de uma atividade e, enquanto tal, originária primordialmente da vontade, não do intelecto (cf. Kenny, ob. cit., p. 59/60). Em anotação do dia 15.10.16, dos “Diários”, tem-se que a vontade é apontada como responsável pela atribuição de significado às coisas. É a vontade que se precisa trabalhar em filosofia, atingindo clareza sobre seu despropósito, quando quer empregar palavras fora de qualquer jogo de linguagem. “A descoberta autêntica é aquela que me torna capaz de interromper o filosofar, quando eu quiser – aquela que acalma, trás a paz (zur Ruhe bringt – também com o sentido de ‘silenciar’) à filosofia, de forma que ela não seja mais fustigada por questões que colocam a ela própria em questão. Ao invés disso, agora mostra-se um método, através de exemplos, e a série desses exemplos se pode interromper”. (I.F., § 133.) 

Há, por assim dizer, regras a serem seguidas, para que se produzam discursos dotados de sentido, seja qual for o tipo de jogo de linguagem, e essas regras não são produzidas por quem quer que tenha certo tipo de poder, mas se acham já implicitamente dadas, na “forma de vida” em que o jogo é jogado (I.F., § 241: “Correto e falso é o que os homens dizem; e na linguagem os homens concordam. Essa não é uma concordância de opiniões, mas sim de forma de vida”.) – daí o “fato fundamental” de que “fixamos regras, uma técnica, para um jogo e que quando seguimos as regras, as coisas não se passam como havíamos suposto. Que portanto nos aprisionamos, por assim dizer, em nossas próprias regras” (I.F., § 125). São regras, pois, convencionadas, mas não de forma arbitrária. Regras que já estavam em vigor, quando começamos a operar com a linguagem e nos encontramos no mundo, mas cuja presença só se evidencia quando as empregamos, especialmente quando o fazemos de forma criativa. (Cf. a discussão extensa desse aspecto, i.e., do significado de “seguir uma regra”, nos §§  217 ss.) Adiante, retomaremos esse ponto, em outro contexto. Para o momento, vale referir passagem, de W., contida nas “Vermischte Bemerkungen”/”Culture and Value” (Georg v. Wright, ed., Oxford, Basil Blackwell Publ.,1980, p. 29), onde se lê: “Minha  maneira de pensar não é bem-vinda na época atual, tenho que nadar com força contra a corrente. Talvez dentro de cem anos as pessoas se interessem verdadeiramente pelo que escrevo. Nada é mais importante que a elaboração de conceitos fictícios, os únicos que nos ensinam a compreender os nossos. Um dos métodos mais  importantes que uso é imaginar o desenvolvimento  histórico de nossas idéias de modo diverso do que ele foi na realidade. Assim procedendo, vê-se o problema sob uma luz inteiramente nova. Só pensando coisas ainda mais loucas que os filósofos é possível resolver seus problemas (grifei).

A partir daí, se obtém um “nivelamento de todas as formas de discurso” (W. Spaniol, ob. cit., p. 135), não havendo nenhum – como, por exemplo, o científico – que detenha a exclusividade do falar com sentido ou que esteja excluído da contaminação por elementos mistificadores. Ao mesmo tempo, note-se que não é descartada a legitimidade de formas de pensamento qualificadas como “metafísicas” – ética, religiosa, estética etc. -, desde que não seja elaborado em um discurso mistificador, hipostasiante, com pretensão a expressar verdades, mas sim consciente de que serão avaliadas pelo efeito que causam nos sujeitos e, por via de conseqüência, no mundo, que para eles é tal como se apresenta em sua percepção, conformada pela linguagem. Lembremos do que é dito no § 118 das “Investigações”: “De onde nossas construções tomam sua importância, uma vez que parecem destruir tudo o que é interessante, i.e., tudo o que é grandioso e importante? (Como em todas as construções, na medida em que deixam sobrando montes de pedras e escombros.) Mas são apenas castelos de areia que destruímos, e liberamos o fundamento da linguagem sobre o qual repousavam”. O que pode parecer uma mera destruição, portanto, é na verdade uma demolição visando uma construção mais sólida… 

Nesse ponto, também, a meu ver, se revelam funções políticas que pode exercer a filosofia tal como W. propõe seja praticada, pois ela leva ao reconhecimento da igual capacidade de todos para uma reflexão adequada sobre qualquer assunto de natureza política (e outros), tendo como condição tão-somente o domínio das regras do jogo de linguagem empregado, que são de caráter público, e que se aprende jogando, praticando-as. Por outro lado, a luta da filosofia para curar-nos do enfeitiçamento de nosso entendimento (I.F., § 109) igualmente nos previne da sua contaminação por discursos ideológicos, falseadores da realidade. 

Por último, uma observação contra o que seria uma interpretação do pensamento wittgensteiniano em termos céticos, ou quase cínicos, segundo a qual seja o que for que se faça ou afirme, desde que seja dentro de algum jogo de linguagem, teria validade. (Nesse sentido parece apontar K.-O. APEL, em “La Transformación de la Filosofia”, trad. Adela Cortina, Joaquín Chamorro e Jesús Conill, Taurus Ed., Madri, 1985, vol. II, p. 306.) Aqui vale lembrar, com Rush Rhees (Wittgenstein’s Builders, Oxford, Basil Blackwell Publ., 1960, p. 171 ss.), que tentar dar-se conta da falta de sentido da linguagem apenas em termos de jogos de linguagem isolados é descuidar do fato importante de que as formas de discurso não se acham separadas umas das outras por um abismo, criado por sistemas de normas mutuamente excludentes. O que pode ser dito em determinado contexto, pelo uso de uma certa expressão, tem seu sentido dependente dos usos dessa expressão em outros contextos, com jogos de linguagem diferentes. 

Quando W. coloca como objetivo central de suas “Investigações” (v. § 122) atingir uma “visão panorâmica” (übersichtliche Darstellung), a meu ver, afasta aquela interpretação de seu pensamento, pois o que busca é “compreensão”, “ver as conexões”, entre jogos linguísticos, encontrando e inventando “articulações intermediárias”. Grifei a palavra “inventando”, utilizada pelo próprio W., pois penso poder com isso invalidar também uma outra crítica, que aparece associada à primeira, a qual imputa ao seu pensamento um caráter “cripto-behaviorista”, por pretender apenas descrever comportamentos determinados por regras de jogos de linguagem, perante as quais não restaria outra alternativa aos indivíduos, senão se curvarem. Numa passagem do “Blue Book” (Werkausgabe, cit., vol. V, p. 52), p. ex., refere não ser sua intenção apenas listar usos correntes das palavras, mas também descobrir novas significações para elas, inclusive, em certos casos, algumas que nos parecerão absurdas. Peter  Winch, por seu turno, em “The Idea of a Social Science” (1a. ed., 1958,) demonstra que a partir de W. se chega exatamente à conclusão, frontalmente oposta ao behaviorismo, de que o comportamento humano jamais se entende apenas observando-o externamente, mas sim procurando captar o sentido que ele tem no interior do grupo ao qual pertence o sujeito.

Quanto à crítica de Herbert Marcuse (cf. “Ideologia da Sociedade Industrial”, trad. Giasone Rebuá, Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1967, pp. 166 e 192), dirigida ao que qualifica de “unidimensionalidade” e “positividade” da filosofia analítica da linguagem, aí incluindo, é claro, em primeira linha, W., só precisamos  lembrar, como já se observou acima, de que não há, pelo menos neste último, a pretensão de reduzir ao que faz tudo o que deva e possa ser feito em filosofia, e a positividade da análise há de ser vista, com Hegel, como um requisito necessário à negatividade da crítica. Aliás, hoje em dia, não se concebe trabalho em filosofia à altura dos tempos sem que passe por o que se chamou de “virada linguística” (the kink, como costumava dizer Wittgenstein em Cambridge aos seus alunos), bem como, dentro dessa, a “reviravolta pragmática”, sendo um exemplo disso exatamente a fase tardia do “herdeiro” da Escola frankfurtiana, de que Marcuse foi um dos mais destacados epígonos: Jürgen Habermas, e sua concepção de “pragmática universal”, tributária do antes várias vezes referido K.-O. Apel.