BOLETIM FILOSOFIA BY WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO

BOLETIM FILOSOFIA BY WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO


O Vírus da Verdade

“Os espíritos xapiri, que descem das montanhas para brincar na floresta em seus espelhos, fugirão para muito longe.

Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los e fazê-los dançar para nos proteger.

Não serão capazes de espantar as fumaças de epidemia que nos devoram.

(…)

Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós.

Todos os xamãs vão acabar morrendo.

Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar.”

Davi Kopenawa Yanomami,

“Epígrafe” ao livro “A Queda do Céu”.

 

Em palestras e escritos nas quais elas foram baseadas, proferidas em diversas ocasiões, após a crise de 2008, no País e mesmo antes fora dele, com publicação igualmente fora e aqui, me valendo de uma combinação do “paradigma imunológico”, que pode ser associado a figuras destacadas da filosofia como Jacques Derrida, Roberto Esposito e Peter Sloterdijk, com a Teoria de Sistemas Sociais Autopoiéticos (que se autoproduzem e reproduzem), desenvolvida sobretudo por alguém com quem tive o privilégio de conviver durante meu doutoramento na Universidade em que atuou e foi um dos fundadores, em Bielefeld, na Alemanha, a saber Niklas Luhmann, conclui pela necessidade de que a sociedade mundial (Weltgesellschaft), por este último teorizada pioneiramente desde princípios dos anos 1970 fosse acometida por um vírus. Tal vírus poderia surtir o efeito paradoxal de provocar uma regeneração, em atacando nossos sistemas (psico)sociais imunológicos, em crise autoimunitária generalizada e em constante aprofundamento, por atacar a quem e aos que deveria proteger, já desprovidos da capacidade de discernir entre o que é próprio do todo a que fazem parte e o que lhe é estranho, externo, e ameaçador, destrutivo, ao invés de benfazejo, necessário à manutenção da sua (nossa) higidez e autopoiese, seja o que pertence ao ambiente (psico)social, seja o que está no ambiente natural. Também prenunciava que em tal ocorrendo seria ou pareceria ser o apocalipse condenatório, mas não deveríamos perder a esperança na apocatástase redentora.

Eis que parece termos chegado a uma tal encruzilhada histórica. O vírus da Covid-19 é apocalíptico, ou seja, literalmente, revelador, e sendo revelador, também literalmente, em grego clássico, o que revela é a verdade, alétheia. Sim, a verdade, isto do que em geral já se tinha desistido, menos em ambientes religiosos, pois se tornou mais um objeto de crença do que da ciência. Daí que nos enigmáticos parágrafos iniciais do, como um todo, reconhecidamente difícil texto do “Prólogo Epistemológico” (Erkenntniskritische Vorrede) de Walter Benjamin, inserido em sua malfadada, apesar de genial (malfada por genial) tese de livre-docência sobre a origem do drama barroco alemão, sugerimos haver uma proposta de que na época, assim como na atualidade – e cada vez mais – seria a teologia um último reduto para se postular a verdade. Tal poderia ser entendido como uma adoção do ceticismo ou falibilismo, tão em voga até hoje, caso não soubéssemos da importância que atribuía e a extrema consideração que tinha Benjamin pelos estudos teológicos. A verdade, afinal, é mesmo ao que damos crédito, no que cremos, sendo portanto um objeto de fé, e “obiecta fidei” constituem, sabidamente, o objeto de estudo da teologia, ressaltando aí, igualmente, nesse “dar crédito”, o componente originariamente jurídico envolvido, a função alética certificadora, cartorial mesmo, do apofântico, fundamento imprescindível de toda convivência humana, impensável sem garantias de co(n)fiança. É nossa confiança que se encontra agora fundamentalmente abalada, confiança em nosso corpo, nos corpos quaisquer, no contato, que sempre pode ser contágio, mal encontro, mesmo quando nos alegra.

O vírus revelou a verdade do equívoco estrondoso em que e com que se constitui a sociedade mundial, sociedade da comunicação, que nunca se realiza, que sempre é levada adiante como expectativa de em momento futuro superar as frustações efetivadas no presente, presente que só se suporta com esperança neste melhor futuro, futuro este que agora desaparece, revelando-se a miragem que sempre foi. E as filas são enormes, ainda maiores, em frente às casas lotéricas, que nunca deveriam ter existido, por serem evidente exploração da economia popular, mesmo agora que as aglomerações são desaconselhadas, mas foram equiparadas a atividades essenciais em mais uma ficção jurídica, dessa grande ficção que é o Direito em seu conjunto, não apenas em algumas de suas partes. Sim, uma ficção coletiva cada vez mais evidentemente falaciosa, mas na qual insistimos, simplesmente por não sermos capazes de substitui-la, por nos faltar um tal poder, um poder que só a crença na magia confere, o poder dos xamãs, profetas e assim chamados videntes, a quem Rimbaud em sua célebre carta convocava os poetas a serem e também caberia convocar os filósofos.

O vírus vem revelando a verdade da incompetência de tantos políticos, em muitos casos justamente os que foram alçados às posições de maior poder, com um destaque mundial para este que se encontra na presidência da nossa triste república brasileira. Desnuda-se pornograficamente o desmonte que promovia e ainda insiste em promover de um mínimo Estado social aqui em implantação. Acelera-se assim o filme grotesco que vivíamos e isso deve ser saudado, pois que chegue logo ao fim este horror! A velocidade de disseminação do vírus acelerou ainda mais, muito mais, o já aceleradíssimo ritmo de progressão dessa guerra que a economia da sociedade mundial movia, sem declarar, ocultada por todos os meios e mídias, contra o planeta em que se assenta. E agora a guerra está revelada, a verdade do estado de guerra generalizado em que vivíamos e ainda vivemos, para morrer igualmente, sem sentido: é o permanente estado de exceção, que novamente Benjamin vislumbrou e tão claramente nos anunciou, em seu texto-testamento, “Teses sobre o conceito da história” (Thesen über den Begriff der Geschichte), em especial na VIII tese – a relevância da teologia vem destacada logo na primeira das teses.

Por fim, ao menos por enquanto, a pandemia revela antes do tempo, antecipadamente, a verdade da digitalização galopante de nossos meios de comunicação, formas de trabalhar e nos relacionarmos, que é o controle de dados e dos seus portadores para assim melhor explorá-los em suposto benefício próprio, isolando-(n)os ainda mais.

Willis Santiago Guerra Filho

Fortaleza, 07 de abril de 2020.